8 de set de 2017

Room Anything #5: Seek and Hyde

Sabe aquele clássico que todo mundo conhece a história, mas ninguém realmente parou pra ler? Hoje nós vamos falar um pouquinho disso. Literatura clássica é um assunto delicado. Quando estamos na escola, somos praticamente obrigados a ler um monte de livros que consideramos chatos e que não tem nada a ver com nossos gostos, sem mencionar o vocabulário rebuscado repleto de palavras que não usamos mais. Não seria lindo se pudéssemos escolher livros que cativam nosso interesse e ainda assim conseguem trazer indagações a respeito da vida? Bem, é o que eu vou tentar fazer essa semana. Tentar.

Primeiramente, trago notícias boas e ruins. A má notícia é que a maioria dos clássicos terão palavras difíceis em tempos verbais que não utilizamos mais. Portanto, ter um dicionário ao lado ajuda bastante, e isso é bom porque enriquecemos nosso vocabulário hoje em dia tão limitado pelo uso constante das redes sociais. A boa notícia, contudo, é que eu vou apresentar um tema muito gostosinho que boa parte das pessoas se interessa: uma pitadinha de horror e suspense.

Não, não é um livro que dá medo, mesmo porque já conhecemos essa história, seja assistindo Pernalonga ou Piu-Piu, seja lendo ou vendo coisas do Hulk, até mesmo em séries de TV, filmes ou jogos. É uma premissa muito conhecida e que praticamente toda pessoa já ouviu falar ou teve acesso a tal referência. Trata-se da tenebrosa história O Médico e o Monstro, no original Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, do autor Robert Louis Stevenson.


Adaptação do personagem Mr. Hyde para o filme Pagemaster - O Mestre da Fantasia,
de 1994, estrelado por Macaulay Culkin.

Obviamente, todos nós conhecemos o enrendo: um médico cria uma fórmula capaz de alterar seu corpo, transformando-se em um ser grotesco e assustador. Porém, apesar de estarmos cansados de ver tais transformações, há muitas diferenças quando comparamos a obra original com suas adaptações, um bom motivo para iniciarmos a leitura e vermos como essas sutilezas tornam a obra ainda mais rica.

A primeira delas diz respeito ao protagonista. Não é Dr. Jekyll quem conduz a narrativa, mas sim o advogado Utterson, um velho amigo do doutor. O primo de Utterson comenta uma história peculiar quando ambos avistam uma casa de aspecto tenebroso ao passear pelas ruas londrinas. A história contada é sobre um homem de semblante terrível que trombou com uma garotinha e a machucou com o impacto. Os transeuntes, indignados com a cena, cobraram que ao menos o agressor pagasse uma quantia em dinheiro para arcar com as despesas médicas. O homem, relutante, acabou acatando e entregou um cheque assinado por Dr. Jekyll.

Utterson sabia que aquele homem só poderia ser o Sr. Hyde, pois, enquanto amigo e advogado do Dr. Jekyll, Utterson guardava em seu cofre o testamento do doutor. Todas as posses e riquezas do médico seriam passadas para o Sr. Hyde. Mas quem era este homem que surgiu de repente na vida do doutor? E por que tão rapidamente ele confiaria sua herança a ele?

Mr. Hyde no episódio do Pernalonga intitulado 
"Hyde and Hare", de 1955.

É quando Utterson começa a investigar as andanças deste tal homem. Ao recolher depoimentos, todas as testemunhas mencionam a mesma coisa: a aparência do Sr. Hyde era inexplicavelmente grotesca. Ninguém conseguia traçar um perfil ou dar características exatas, pois todos ficavam horrorizados com tamanha maldade que emanava de seu rosto. Apenas sabiam que suas roupas eram sempre maiores que seu corpo, desalinhadas e desproporcionais.

Certa noite, Utterson espreita a casa do Sr. Hyde, na esperança de confrontá-lo. É quando o advogado finalmente experiencia o mesmo terror das testemunhas ao encarar o monstro pela primeira vez. A partir de então, uma série de acontecimentos estranhos começam a surgir, envolvendo o nome de Hyde e seu velho amigo Dr. Jekyll. Cabe a Utterson desvendar este mistério antes que seja tarde demais.

 
Pateta fazendo referência à transformação de Mr. Hyde
no episódio especial "Motor Mania", de 1950.

Outra diferença que podemos notar entre a obra original e diversas adaptações é que temos uma ideia de que o monstro seja excepcionalmente maior, mais forte, e que não tenha racionalidade. E essa premissa nós podemos tirar de uma das adaptações mais famosas da história: Dr. Bruce Banner e sua contraparte monstruosa, o Hulk.

Não é segredo para ninguém que seus idealizadores, Stan Lee e Jack Kirby, beberam da fonte do Médico e o Monstro para criarem o personagem. Bruce é um cientista brilhante e pacífico que, ao ser exposto à energia gama, acabou desenvolvendo dentro de si um monstro incontrolável e cheio de fúria.


Bem, acontece que o Sr. Hyde, no original, não é um ser forte e irracional. Sua estatura é menor, seu corpo é mais robusto e curvado, e sua atitude, apesar de ser mais animalesca, ainda possui uma capacidade de racionalizar sobre vários aspectos. Ele assina cheques, é capaz de criar planos e ainda sabe quais elementos utilizar para produzir mais de sua fórmula. O que torna Hyde tão monstruoso é sua constante raiva e malícia, algo explorado no livro. Ao ser mininamente irritado, ele é levado a atitudes extremas, sendo capaz até mesmo de assassinar pessoas que ele nem conhece por puro impulso.

Por fim, depois de toda a narrativa, temos o lado da história contado por Dr. Jekyll. Só então é que temos dimensão do que representa essa dualidade e maniqueísmo presente na obra, e como não podemos acreditar na ideia de que é possível separar o bem do mal. O resultado é tenebroso, pois o ser humano tem inerente em sua personalidade, todos os elementos ruins que podem transformar um homem em um ser monstruoso.

 
Episódio de Piu-Piu e Frajola chamado "Hyde and Go Tweet",
de 1960. Traumatizou muitas crianças.

Aceitar nossa maldade, raiva, inveja, e trabalhar para que possamos superá-las, é o único caminho possível para que não sejamos dominados por tudo de ruim que existe no mundo. Esta é a essência do Médico e o Monstro. Quer mais uma motivação para ler o livro? Stephen King, mestre do terror, considera a obra uma das três melhores histórias de terror de todos os tempos. Outra boa notícia é que a obra já está em domínio público, então você pode encontrá-la de graça na internet. E se quiser ter o livro em mãos, certamente a maioria das bibliotecas terão o livro no catálogo.

E por fim, se ainda restam dúvidas da importância que esse livro tem para a cultura pop, ainda temos como exemplo músicas que citam a obra, indo desde Ozzy Osbourne até Britney Spears. Nas HQs, além do Hulk, temos o próprio Mr. Hyde da Marvel, pai da agente da SHIELD Daisy Johnson, além da Liga Extraordinária, criada por Alan Moore, que inclusive ganhou uma adaptação para filme. Em séries, podemos encontrar a encarnação do personagem em Penny Dreadful e Once Upon a Time. Sem mencionar a enxurrada de referências que os desenhos antigos nos proporcionaram quando éramos mais novos. Bem, vale muito a pena conhecer o material que ainda inspira e mexe com nossa imaginação até os dias de hoje!

Na semana que vem, orgulhosamente, vamos visitar uma cidadezinha dos Estados Unidos que, à primeira vista, parece que não tem nada de especial. Mas se olhar de novo, e procurar bem, você encontrará segredos e mistérios que vão além da compreensão humana. A dica é: LTOLOXA! Até a próxima, pessoal!


 
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