1 de set de 2017

Room Anything #4: Divinamente humanos

Completamos hoje um mês de coluna! Espero que ela esteja sendo útil e agradando o gosto de vocês!

Hoje vamos visitar outra mídia. Se você gosta de filmes de heróis, bem, eles não surgiram do nada. Estes heróis provavelmente têm uma origem muito antiga e uma cronologia extremamente densa e cansativa. Muitas pessoas quando vão migrar para este mundo, ficam perdidas (eu inclusa quando comecei, não nego). De fato, começar a ler historinha em quadrinho - ou, carinhosamente, HQ - é uma tarefa quase hercúlea. Não somente porque alguns dos nossos heróis favoritos foram criados literalmente no século passado, mas também porque o conteúdo das HQs é incrivelmente vasto e confuso, cheio de reboots, eras obscuras e mundos alternativos.

Hoje em dia existe um esforço consideravelmente bacana para que novos leitores possam se encontrar neste mundo, como guias de leitura, recomendações, vídeos explicativos, entre outros. Mas hoje eu não vou falar sobre uma saga específica. A história que gostaria de trazer a vocês hoje é praticamente atemporal e absurdamente relevante.

Pra quem acompanha os filmes de herói, sabemos que este ano teremos o lançamento de Thor: Ragnarök. É verdade que os filmes antecessores do deus do trovão são bem fracos se comparados com todos os demais filmes do Universo Cinematográfico Marvel (o famoso UCM). Mas como a esperança é a última que morre, eu estou empolgada não vou mentir que 80% do motivo é por causa da direção do Taika. E é por isso que vamos falar um pouquinho de Thor na editora, mas não somente dele. O foco não é do herói hoje.

Como eu disse anteriormente, eu quero trazer para vocês hoje uma história atemporal. As historinhas em quadrinho têm uma tendência muito grande em desenvolver o maniqueísmo, ou seja, a luta do bem contra o mal. Estas duas medidas são sempre bem representadas, dificilmente tendo nuances. Foi o que aconteceu com a mitologia nórdica quando foi absorvida pelo povo cristão. A fim de identificar um elemento narrativo do lado do mal, tal como havia a concepção de Lúcifer ou até mesmo Hades, coube a Loki, o deus das trapaças, assumir este papel. Não foi diferente com a Marvel, que adaptou de uma maneira peculiar a mitologia nórdica, pincelando camadas mais nítidas de heroísmo em Thor e mais vilanescas em seu irmão Loki.

Obviamente, há muita crítica disso por conta do material original. Por incrível que possa soar, Loki não é este vilão todo que muitos ainda acreditam que ele seja. Claro que ele não é um personagem alinhado ao senso de justiça e bem-aventurança, porém a sua concepção original também não é inteiramente vilanesca. E podemos conferir estas nuances de cinza em Os Julgamentos de Loki!

Escrita por Roberto Aguirre-Sacasa e lançada em 2010, a história consiste em 4 volumes.

Nesta história, temos elementos originais da mitologia nórdica, como se estivéssemos lendo um livro ilustrado, embora os personagens sejam da própria Marvel, daí advém o motivo da minha indicação. É como se estivéssemos lendo A Odisseia ou Os Doze Trabalhos de Hércules, histórias fechadas que transmitem toda a cultura mitológica. Vou apenas contar o comecinho para poder desenvolver as questões pertinentes que tornam esta uma das HQs mais brilhantes da Marvel.

Quem conhece mitologia nórdica, sabe que Loki sempre se sentiu inferior em Asgard. Por ser adotado e não possuir a mesma beleza dos asgardianos, ele sempre fora alvo de deboche. Era tido como fraco e consequentemente era menosprezado por um povo que tinha orgulho de sua beleza e força física. Thor era exceção até certo ponto, o que apenas aumentava a inveja de Loki. Thor era belo, forte e amado pela mulher mais linda de Asgard, Sif. Sabendo que jamais poderia se equiparar ao nível dos asgardianos, certa noite ele corta os cabelos longos e dourados de Sif enquanto ela dormia.

Thor o confrontou e, assumindo a culpa e dizendo ser apenas uma brincadeira, partiu em direção aos anões que habitavam a terra dos elfos negros, a fim de conseguir presentes bons o suficiente para conquistar o perdão dos deuses. É aí que a personalidade distorcida de Loki começa a agir. Com sua inteligência e malícia, ele vai plantando no coração dos anões quem seria capaz de fazer o melhor presente para os deuses, apostando sua cabeça que não seriam capazes. E, ao final, sem exercer o menor esforço, Loki volta de mãos cheias, inclusive tendo em sua posse o recém-forjado Mjölnir, o martelo que amou à primeira vista.

As trapaças de Loki não permanecem nas sombras por muito tempo: Odin assume que o Mjölnir é o melhor presente de todos e o anão cobra a aposta de Loki. Esperto como só o deus da trapaça poderia ser, ele diz que apostou apenas sua cabeça, e não o pescoço. Não era possível tirar a cabeça sem comprometer a integridade de seu pescoço. Todos ficam indignados e como castigo por sua falta de honra para com os anões e asgardianos, Thor costura sua boca. Isso mesmo. Loki não voltaria a desonrar acordos com sua língua venenosa. Seu castigo agora seria ver Thor recebendo o amado Mjölnir que deveria ser seu. Os deuses exaltavam seu irmão e o saudavam, enquanto sua boca sangrava e seus olhos processam a injustiça de alguém que o feriu e o humilhou profundamente.
 
Vou parar de contar a narrativa, pois acredito que já temos elementos o suficiente para começar a analisar esta questão de bem x mal. Já podemos inserir uma pergunta: o que Loki fez foi errado? Se analisarmos da perspectiva semântica, ele de fato não estava errado. Ele foi muito astuto para se livrar da morte, isto não podemos negar, mas não é exatamente o que alguns advogados fazem ao achar brechas em testemunhos e leis a fim de defenderem os interesses de seus clientes?

Sempre temos a tendência de enxergar o lado do herói. Mas nesta HQ, vemos a situação toda sob a perspectiva de Loki. Alguém que foi retirado de seu próprio lar à força, foi obrigado a conviver com um povo extremamente narcísico, rejeitado pelo seu porte físico, subestimado pela própria inteligência e, por fim, humilhado por aqueles cuja aceitação ele buscava. É a última gota que faz com quem o copo transborde.

Loki possui diversas encarnações ao longo das HQs e demais mídias.
Cada uma delas pode se encaixar em um alinhamento de personalidade diferente.

A partir de então, temos o desenvolvimento do lado mais obscuro do personagem. É neste momento em que ele assume que jamais terá respeito a não ser que os deuses caiam. E daí advém seu papel no Ragnarök e seu caminho para iniciá-lo, bem como sua passagem para o lado vilanesco. É por isso que esta história, tanto na mitologia quanto na HQ, é tão interessante. Finalmente, notamos que as pessoas não possuem cores puras em sua personalidade, mas sim, são reflexo de uma mistura de elementos, complexas em personalidade e atitudes. Thor pode ser digno de levantar o Mjölnir, enquanto Odin é o pai dos deuses, mas são estes mesmos deuses que ficam bêbados durante banquetes e destilam todo o seu machismo ao zombar da forma feminina que Loki assume de tempos em tempos. Se há algo que aprendemos é que deuses são apenas poderosos. Perfeição é uma palavra que definitivamente nenhum deles aplica em suas respectivas vidas.

Bem, o resto da história vocês podem conferir na própria HQ, se a narrativa até aqui foi suficiente para despertar seus interesses. Há mais elementos narrativos que continuam a pressionar o botão da moralidade, o que apenas enriquece a experiência da leitura. E se vocês ainda não leem HQs, eis um bom começo para se aventurar em uma história aclamada pela crítica e muito querida entre os fãs. No site da Panini e da Saraiva, está por um preço bem acessível (19,90). Mas se você não quer a versão física, se é que me entendem, podem acessar online aqui.

Na semana que vem, continuaremos a debater sobre maniqueísmo (pois amo), só que desta vez em um clássico que todo mundo conhece, mas nunca leu. A dica é: o monstro dentro de nós às vezes se cansa de ficar escondido! Até semana que vem! |x|

 

 
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