18 de ago de 2017

Room Anything #2: Desenho pra adulto chorar

E lá vamos nós!

Para quem está perdido na coluna, a primeira matéria está aqui, juntamente com minha apresentação e explicação de seu propósito. Podemos começar?

Dando prosseguimento à nossa coluna, hoje vamos mudar um pouquinho de mídia. Das séries, vamos para o mundo mágico da animação... adulta? Isso mesmo. Ainda não estamos muito acostumados a animações voltadas para o público adulto no Brasil, afinal elas ainda têm o estereótipo de serem feitas para as crianças.

Um importante pontapé pode ser averiguado quando Simpsons e Futurama conseguiram se estabelecer nas terras tupiquinins, embora seu conteúdo, ainda que não indicado, sempre fora consumido por crianças (eu inclusa). Mas foi com Family Guy que as animações realmente começaram a tomar outras perspectivas.

Ainda assim, temos poucos exemplos concretos de sucesso, especialmente no Brasil. Palavrões nas dublagens são tão raros quanto Pokémon shiny, e sabemos que as animações adultas estão recheadas deste tipo de linguajar, o que só complica suas adaptações. Por sorte, temos outros tipos de plataforma para consumir tal produto, que é caso das TVs por assinatura e a nossa amada Netflix. E são graças a essas plataformas que finalmente conseguimos mais opções deste tipo de obra controversa, porém interessantíssima.

Hoje vamos falar de uma que tem ganhado a atenção e carinho do público. Imagine uma mistura de sci-fi com pegada bad vibes e crises existenciais, morais, éticas, tudo isso em meio a aventuras apocalípticas. Estamos falando de Rick e Morty!


Criada por Justin Roiland e Dan Harmon, a série nos apresenta Rick, um cientista cuja mente é a mais prestigiada de todo o universo, e seu neto Morty, um garoto inseguro e privado de qualquer inteligência. Juntos, eles vão para outros planetas graças à arma de portais de Rick, buscando materiais para as experiências, investigando novas civilizações e arrumando muita encrenca, e não estou me referindo às encrencas da Sessão da Tarde. Estou me referindo a genocídios, mutações e aniquilamento.

É, a série é um tanto quanto pesada. Não pela violência em si, porque se você está acostumado com Simpsons e afins, já está familiarizado com o humor ácido e violência crítica dos episódios de Comichão e Coçadinha, por exemplo. Rick e Morty vai muito além de tudo isso. Conforme vamos conhecendo os protagonistas (e sua família), somos constantemente bombardeados com questões conflituosas que vão muito além da nossa filosofia cotidiana.

Lidamos constantemente com universos paralelos, versões alternativas dos personagens que podem facilmente ser substituídos como se não fossem nada, vazio existencial, ausência de afetividade, conflitos familiares, até chegarmos em questões mais palpáveis, como alcoolismo, insegurança e ansiedade. Tenho uma ligeira crítica a gatilhos realmente pesados na série, como abuso e suicídio, mas são exatamente estes gatilhos que dão o diferencial para a ousadia e acidez que dão vida a esse mundo. Já deixo avisado de antemão quanto a esses gatilhos! Não assistam se eles causarem desconforto de alguma forma!

Apesar de todo esse mar de niilismo, conforme a série avança, vamos conhecendo pouco a pouco Rick, que na minha opinião é o melhor personagem, justamente por sua profundidade. À primeira vista, ele é um cientista velho e ranzinza que não se importa com nada a não ser criar seus inventos e sobreviver à loucura do universo. Porém, pouco a pouco nos aprofundamos em questões realmente pertinentes que nos fazem entender as razões de ele agir de tal forma. E isto é o que dá o tom de mistério e vontade de acompanhar sua jornada. Ao encontrar pequenas evidências de altruísmo em seu caráter, começamos a desenvolver afetividade por ele. Os personagens que constituem a família também vão crescendo (ou diminuindo, dependendo da perspectiva), afinal, ela segue uma narrativa cronológica. Pois bem, o humor ácido de Rick e Morty está sempre presente, mas não quer dizer que não sentiremos pontadas no coração em episódios decisivos que exploraram seus âmagos.

Em seu caráter técnico, a série é um prato cheio para quem gosta de clássicos e referências. Temos um episódio inteiro baseado no conceito de Jurassic Park, em outro somos convidados a seguir uma quest de RPG medieval-alienígena, até chegarmos em um cenário diretamente retirado de Mad Max (com direito a bardo de guitarra em chamas!). A série até agora possui 2 temporadas completas, e a terceira está atualmente em exibição, com aproximadamente 10 episódios em cada. Vale também mencionar a trilha sonora que atravessa nosso coração de forma irreparável. Vou deixar uma palhinha da música que virou símbolo (até mesmo hino) da animação!

Jemaine cantando ♡

Bem, o episódio piloto pode causar muita estranheza (ao menos, causou em mim), mas com o tempo você passa a se acostumar com a estética da animação. Eu só não recomendo de forma alguma comer algo enquanto assiste. Fica a seu critério julgar se é capaz do desafio. Um último fato interessante é que pouco a pouco somos submetidos à quebra da quarta parede, algo que ficou bem popular graças aos quadrinhos do Deadpool.

Uma animação que foge de estereótipos, ácida, um tanto quanto pesada, mas maravilhosa. Uma série que nos deixa com vontade de ver mais e mais (e sofremos com o pouco número de episódios). Um investimento maravilhoso no repertório de quem curte este tipo de mídia. Recomendo fortemente para quem quer se surpreender! E, como disse na semana passada, wubba lubba dub dub!

Hoje ficamos por aqui,  mas na semana que vem vamos nos aventurar em um mundo repleto de histórias e fantasias. Ah, e árvores que nos assustam! Até a próxima, pessoal! |x|

 
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