16 de abr de 2017

Devaneios: atitudes dentro do fandom dignas da Doku Doku no Mi

Esta ademir que vos escreve tem se ausentado um pouco, mas quando o texto vem, ele chega à galope. Se não for pra causar, a gente nem começa, não é mesmo?
Bem, recentemente eu tenho tomado uma posição bem passiva em relação ao fandom de One Piece porque, mesmo não sendo idosa no meio, eu venho observando atitudes e movimentos massificados que de certa forma me... cansam. 
São determinadas atitudes tóxicas que fariam o Magellan ter inveja da quantidade de veneno. Eu gostaria de discutir alguns aspectos que venho coletando de toda essa minha pesquisa nem-um-pouco-científica. Vou enumerá-las conforme desenvolver o texto.

1. Formação de opinião
Quem acompanha a Um Pedaço desde nossa fundação sabe que somos uma página pacífica e que não levanta bandeira pra nenhum grupo específico. Mesmo porque nós da equipe somos adultos e maduros o suficiente para saber que picuinhas entre grupos de One Piece é algo tão infantil que nem merece nossa atenção. Se ninguém aprendeu com o Oda o que significa amizade para com algo que todos amamos em comum, quem é que vai ensiná-los? Não serei eu, grata.
Esclarecida nossa posição de neutralidade, adentrarei em algo delicado: os formadores de opinião. Quem são eles? O que vivem? O que fazem? Eu mesma sou uma formadora de opinião, pois meu texto é completamente embasado no meu ponto de vista observatório, apesar de que eu não sou uma pessoa que tem uma influência grande no meio. Por esta mesma razão, existem os grandes formadores de opinião de One Piece. São nossos youtubers, colunistas e integrantes de podcasts que alcançam nossa fanbase de forma quase totalitária. Por experiência pessoal, conheço grande parte deles, desde os primeiros passinhos da nossa querida página.
Mas aonde eu quero chegar com isso? O que eu ando observando é um movimento em que os fãs que consumem essas opiniões acabam aderindo a elas como verdade absoluta. Eu já ouvi gente dizendo que Youtuber X é entendedor e eu não. Meus caros, não existe curso de capacitação para One Piece (até onde eu sei). Qualquer fã pode ter acesso aos volumes do mangá (ou até o anime nas partes canônicas) e formar uma opinião baseada naquilo que ele leu. A diferença é que formadores de opinião com alcance elevado acabam por gerar uma admiração hierárquica, o que os colocam em uma posição de poder através de um saber o qual todo santo fã tem acesso.
O que eu estou querendo dizer com isso? É muito simples. Você lê, você interpreta, você expressa sua opinião. Agora vem a parte bacana, prestem atenção. > Vocês podem DISCORDAR da opinião do formador de opinião<. Chocados, não é?
Eu tenho visto muitas críticas na forma como a fanbase vem se estabelecendo nesse aspecto de opinião. Primeiro, porque uns acreditam piamente naquilo que ouvem/leem/assistem e o proferem como verdade absoluta. Já outros ficam indignados com esse movimento de formadores de opinião.
Eu gostaria de salientar que, enquanto criadores de conteúdos, nós temos o direito de expressar nossas ideias. Não a tomamos como verdade, então as pessoas podem e devem contestar sim. Isso é o básico de um debate. Argumentação, exposição de ideias, análise etc. É muito simples na prática. Então minha crítica aqui cabe a quem tanto apoia essas verdades absolutas de uma forma que chega a ser alienadora, tanto quanto quem critica quem produz essas opiniões. Ninguém é obrigado a aceitar uma opinião como verdade, assim como todo mundo em teoria deveria ter um pouco de senso crítico e questionar aquilo que consome. Fica a dica aí pra quem quiser exercer a prática.

2. Liberdade de expressão x discurso de ódio
Sabe aquela história de que nascemos em um país livre? É verdade, em partes. Toda sociedade exige regras e, em boa parte delas, tais regras se chamam leis. E se você acha que Internet é terra de ninguém e te garante anonimato, eu sinto lhe informar que você está enganado. Desde o Marco Civil da Internet (que você pode conferir neste link), acabamos garantindo direitos pertinentes ao uso desta rede maravilhosa e cheia de memes a qual todos nós amamos e não vivemos sem. Mas não somente isso, também assumimos compromissos.
Ao assumir tais compromissos, nós nos tornamos eternamente responsáveis por aquilo que proferimos. Tudo o que eu escrevo, tudo o que declaro, tudo isso pode ser usado contra mim caso eu vá contra alguma lei postulada. Mas o que isso tem a ver com One Piece?
Já passamos da fase em que tentamos ensinar aos fãs que One Piece fala sobre amizade, respeito e companheirismo. Você pode conferir um texto meu falando sobre isso aqui. Já foi desenhado de todas as formas possíveis, mas parece que tem gente que não sabe mesmo interpretar um texto.
Por esta mesma razão, eu acredito que, já que não vai pelo amor, vai pela dor.  Então sabe quanto o dedo de falar besteira chega a coçar? Então, coça mas não deita ele no teclado. Eu tenho observado (e não é pouco) o tanto de mensagens racistas, homofóbicas e machistas que espreitam nosso fandom.
Eu não vou nem adentrar nesses termos por razões óbvias de cansaço e tudo o que havia para debater sobre o assunto, eu já o fiz. Resumidamente, eu acho que é questão de respeito. Sabe quando você tem cinco anos de idade e sua mãe fala que apontar o dedo é feio e falta de respeito? Tem gente que esqueceu. Sabe quando você gosta de sorvete de chocolate e seu coleguinha gosta de sorvete de morango? E vocês ficam de boas porque ambos gostam de sorvete, mesmo que sejam sabores diferentes? Então, o ser humano não consegue ficar de boa. Não existe isso.
Quer ver um experimento simples e que você provavelmente já fez? Uma página posta uma imagem de casal. Pronto, o mar se abre, os titãs são soltos e o caos e a destruição reinam o abismo dos comentários.
Gente. Gente. Custa saber que existe opinião e gosto diferentes dos seus? Você realmente precisa estragar a experiência de outra pessoa por pura opinião divergente? A ponto de ofender? De ficar ~nervouser~? De ser até mesmo preconceituoso? Não, não precisa. Você pode se expressar como uma pessoa do parlamento inglês e dizer cordialmente “Não concordo por isto, isto e isto”. Olha que simples. Ninguém saiu ferido, todo mundo manteve suas opiniões expressas com sucesso e o debate foi construtivo. O apocalipse foi evitado.
A dica novamente é: pratiquem. Não dói.

3. Embasamento
Agora eu gostaria de falar um pouco sobre embasamento. Teorias são maravilhosas. Eu mesma há muito tempo escrevi teorias sobre os golpes do Zoro e suas respectivas espadas, sobre comparações entre Dofla e Croco, previsões e expectativas para próximos capítulos. Admito que gosto muito e muitas teorias de nossos fãs fazem sentido, elas sempre povoaram nossa mente com muita imaginação. Mas pra tudo na vida, existe um limite. Você pode sim desenvolver a sua teoria, mas eu recomendo de todo o coração que exista embasamento. Uma fala, a forma como um personagem foi desenhado, uma onomatopeia, o nome original em japonês, tudo isso pode ser usado como fonte.
O problema é quando inventam uma teoria do nada e a tomam como verdade porque ela se tornou popular. De novo, tudo isso tem a ver com formação de opinião e sua tomada como verdade absoluta. A única pessoa, literalmente, que pode dizer se algo é verdade ou não, é o próprio Oda. Ele é rei, mestre, gênio, dono desse mangá todo.
O problema é que já vi muita gente defender com unhas e dentes ideias que nem mesmo existem na mitologia de One Piece. Acho humildade importante, e reconhecer que te faltam evidências para prosseguir uma suposição é um passo a mais no caminho de um debate bom e saudável.

Para finalizar, eu estou... desanimada, de certo modo. E decepcionada de ter que vir até aqui e escrever um texto de coisas tão óbvias e simples como essas. Tão básicas, mas que a gente precisa resgatar porque parece que esquecemos. De coração, parece que o Magellan chegou e usou o Venom Demon: Jigoku no Shinpan, envenenando o fandom só de respirar. Talvez isto não esteja tão presente na realidade de vocês, mas eu acompanho bastante discussões em grupos grandes de One Piece, e leio bastante comentários, só nas sombras como boa stealth que sou. Garanto que é real. Muita gente desmerece seu trabalho simplesmente por você fazer aquilo que você ama.
E chega a ser frustrante você amar algo e querer produzir debates e teorias boas, demonstrar o amor que você tem por aquilo, e quando menos você percebe, toma paulada nas costas por gente que adora ver o circo pegar fogo por absolutamente nada.
A Um Pedaço sempre teve um sonho de unir os fãs, de respeitar a opinião de todos. Sabemos que é utópico pra caramba, mas por que não começar por nós mesmos? Se cada um fizesse a sua parte, não seríamos uma comunidade melhor? É para se refletir, talvez até por em prática. Um ambiente saudável começa por nós mesmos.

 
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