26 de out de 2016

Devaneios: vamos falar de sexismo no meio nerd?

Há muito tempo eu não escrevia nada aqui na uP (e peço perdão por isso), mas hoje aconteceu algo no início engraçado, mas depois se tornou um Puffing Tom descontrolado. Pensando com meus botões e fantasminhas, resolvi escrever uma matéria polêmica que não envolve somente One Piece, mas também envolve toda a comunidade nerd, otaco, geek (chame do jeito que você quiser). E essa matéria, já avisando de antemão, é dolorosa para meninas como nós, inseridas nesse meio extremamente delicado igual à frágil masculinidade, mas também servirá de ferramenta para irmos pouco a pouco descontruindo essa visão de mundo e tentando criar um ambiente saudável em que todas possamos ler as porcarias dos nossos mangás, hqs, livros etc, sem sermos enquadradas em mil estereótipos diferentes.

Contextualizando: estava eu lá feliz porque exploraram algo muito valioso para mim em uma série de TV baseada em historinhas em quadrinho: a sexualidade de um personagem. Não bastando comentários homofóbicos, eis que surgem os replies dos machos ofendidos. A promotoria gostaria de submeter os prints como evidência.



Prints submetidos ao Registro da Corte com uma leve pitada de vergonha alheia.

Muito triste isso. Quem me conhece, sabe que eu sou apaixonada por One Piece a ponto de debater sobre a obra com coerência. Só conferir minhas matérias, as lives, podcasts. Mas não para por aí. A primeira vez que coloquei as mãos em um console foi com cinco anos (eterno Supernintendinho <3). Sou apaixonada por literatura fantástica desde que me conheço por gente. Entrei no mundo dos mangás e animes tardiamente pela falta de acesso, mas cá estou eu, correndo atrás do prejuízo. O mesmo vale para HQs. Não vou mentir, já tive minha capacidade no video game julgada pela cor do meu cabelo. E isso cansa.

Cansa não porque eu sou subestimada pelo montante de informação geek que eu acumulo. Cansa porque eu sou mulher. Cansa porque esses entendedores do mundo nerd tampam os ouvidos assim que percebem que é uma garota quem está com a palavra. Não importa o que eu escreva, não importa o quão bem eu trabalhe a coerência, lógica, argumentação. Não, basta ser uma garota que o peso disso cai em nossas costas. Os estereótipos, os rótulos, as zombarias. Algumas não ligam, eu já gosto de matar os leões cotidianos com provas porque eu sou fã de Ace Attorney, né, gosto de evidências haha.


E claro, sempre existirão aqueles que dizem que isso não é exclusivo de mulheres. Não, não é mesmo, eu sei. Mas dificilmente suas faculdades mentais serão postas à prova pelo seu gênero. Eu nunca ouvi alguém falar: "Nossa, você é ruim em Diablo (ou qualquer outro jogo de sua preferência) porque é homem!". E se alguém falou isso algum dia, não passa de uma exceção à regra. O contrário, infelizmente, é real. Mulheres que jogam online sabem disso.

Eu espero, de todo o coração, que vocês leitores da uP, jamais façam isso. Não tirem o valor do que as garotas escrevem, não as subestimem pelo simples fato de serem mulheres. A própria Kuina morreu acreditando que não era capaz de realizar o sonho por ser mulher. Mas podemos ver em nossas vidas mulheres como Belle-mère, Nami, Robin, Vivi, Koala, que lutam por seus sonhos, que acreditam que serão ouvidas se vencerem suas batalhas pessoais.

Essa matéria não se trata sobre problematizar algo grandioso demais para a compreensão das pessoas. Trata-se minimamente de respeito. É isso, é o básico, é o mínimo que você pode oferecer a outra pessoa para uma convivência saudável. É ter empatia. É  ter a possibilidade de oferecer algo ao mundo e ser ouvida em troca. É tratar o próximo com igualdade. Por que é tão difícil aceitar que somos iguais? Talvez seja orgulho, privilégio, necessidade de rebaixar a outra pessoa... Devo ser sincera, eu vejo muito mais virtude em frases como "mudei de opinião pelos seus argumentos" ou "não concordo com seu ponto de vista, mas respeito" do que xingamentos e palavras vazias. Porque, se você carrega esse tipo de visão, uma visão em que você subestima alguém pelo gênero, é isso a que você se resume: alguém vazio preso dentro do próprio mundo. *fecham-se as cortinas*


 
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