4 de fev de 2016

ANALISANDO O FANDOM DE ONE PIECE NO BRASIL: SOMOS CHATOS OU MUITO UNIDOS?



Observando a trajetória de One Piece é possível visualizar que a história já se tornou um clássico. Esse ano One Piece completa 19 anos de estrada e fãs de todas as idades acompanham a obra, esperando pelo seu final – que um dia tem que existir, convenhamos!! Olhar para gerações diferentes durante essas quase duas décadas de existência de One Piece me fizeram questionar o quanto os fãs são dispersos, diversos, mas que ao mesmo tempo se tornou um fandom coeso e homogêneo no Brasil. Quase paradoxal. 

Henry Jenkins
Esse texto é o mais diferente possível de tudo que já foi escrito na Um Pedaço. Isso porque está na hora de linkar estudos de especialistas em comunicação com One Piece e seus fãs. É possível fazer isso falando de quadrinhos naturalmente, e nem é preciso ir lá atrás com filósofos do passado. A teoria é extremamente atual, e envolve diversos níveis de pensamento. Os autores Henry Jenkins, Sam Ford e Joshua Green – os três americanos - bolaram as ideias e aprofundaram o tema a partir de uma teoria também de Jenkins chamada “cultura da convergência”, publicada em 2006. Essas ideias mais recentes dos três autores foram compiladas numa teoria denominada “cultura da conexão” – livro de 2013 publicado pela New York University. Mas, para não embananar a cabeça de vocês leitores, usarei apenas duas palavras-chave aqui: propagação e engajamento dos fãs. O conceito de “propagar” possui um significado técnico na área de comunicação, e nada mais é do que "mídia propagável", ou seja, algo – uma imagem, conteúdo de texto, vídeo, informação etc - que se espalha e repercute nas diversas modalidades de mídia e nas redes sociais. A repercussão garante o nível de engajamento do público. As coisas estão ligadas, percebem?
Sam Ford
Para que entendam a seriedade do texto aqui, Jenkins é jornalista, Ph.D em comunicação, já foi diretor do Programa de Estudos de Mídia Comparativas do Massachusetts Technology Institute (MIT), além de dar aulas também atualmente na Universidade da Califórnia. Resumindo, o cara é bem influente na área de comunicação atual, e, para nossa sorte, é um fã incondicional de cultura pop. (para quem quer saber mais sobre esse mitoso marivilindo, se joguem: http://henryjenkins.org/). Sam Ford e Joshua Green são autores mais novos que seguiram os passos do Jenkins, participando de pesquisas no MIT, e Joshua na Universidade da Califórnia também.


Joshua Green
Pois bem. Entre as teorias de Cultura da Convergência e Cultura da Conexão, há inúmeros termos teóricos que eu poderia ficar dias e dias explicando, mas tentarei ir direto ao ponto. O objetivo é levantar reflexões a respeito da formação do fandom brasileiro de One Piece a partir das ideias desses três autores aí. Mas, para dar uma entrada digna sobre o assunto, ouçam o OPEXcast sobre fanbase, tem coisas em comum com esse texto (clique aqui). Ainda com fôlego? O texto está só começando.


Narrativa Transmídia
Para entenderem o primeiro ponto dessa reflexão, é preciso entender o que é narrativa transmídia, pois foi a partir da análise aprofundada desse conceito que os autores chegaram à definição de dois tipos de fandom: o “afirmacional” e o “transformacional”. Segurem essa informação aqui, ainda tem a explicação da narrativa transmídia.

 
De acordo com Jenkins, narrativa transmídia significa “histórias que se desenrolam em múltiplas plataformas de mídia, cada uma delas contribuindo de forma distinta para nossa compreensão do universo; uma abordagem mais integrada do desenvolvimento de uma franquia do que os modelos baseados em textos originais e produtos acessórios”. Usar exemplos sempre facilita a vida. Pensem que narrativa transmídia significa universo expandido. Peguemos o universo da Marvel Studios. Mesmo que sejam mídias audiovisuais, o universo da Marvel está expandido em diversas plataformas televisivas. Temos um universo no cinema, outro na Netflix e outro na ABC Studios. Para entender a história toda e suas ligações desse mesmo universo, é bom que os fãs acompanhem todas as mídias para integrar as histórias e personagens, dessa forma, tudo fica mais claro.

Outro exemplo ótimo é a franquia Assassin’s Creed (AC), que não é só formado pelos jogos de console, há jogos para mobile - Assassin's Creed Pirates e está para lançar o AC Identity - que expandem o universo e é cânone da história principal, além do filme em que o ator Michael Fassbender irá atuar como um personagem novo, mas igualmente cânone para a franquia. Sem contar as Hq’s, que também fazem parte do universo. Resultado: diversas plataformas de mídia conversando com um universo criado. Elas se integram e juntas montam uma história.
E em que lugar One Piece entra nesse conceito? Pois é, One Piece em si não é o melhor exemplo para explicar a narrativa transmídia. No entanto, sabemos que One Piece possui a cooperação de diversas mídias. Apesar de games, filmes e a animação não contarem outras histórias que são consideradas canônicas e nem expansão de um universo – aqui só o Film Z é uma exceção e ainda em partes -, eles não são descartáveis. As outras mídias chamam a atenção de públicos diferentes, trazendo interesse de uma diversidade de pessoas. Para quem acompanha o mangá, terá ali a obra original em sua totalidade, com os complementos de databooks e artbooks, que também são materiais editorias (de livraria e bancas de jornal). O Capítulo 0, por exemplo, existe em mangá, desenhado e roteirizado pelo Oda, que teve uma continuação no cinema, mas que não é considerado cânone (Strong World nos mostra a existência do Shiki, mas a luta do Luffy com ele não é considerado no universo do mangá por ser um final descartado pelo Oda).

O que isso significa afinal? Que o leitor do mangá nem sempre é o que assiste o animê, os filmes e joga os games. E nem sempre o espectador que assiste o animê, lê o mangá e seus complementos, e nem joga nenhum game. E aí entra o que nossos autores lindos dizem: “nesses casos, os produtores nunca têm certeza da profundidade com a qual os fãs serão capazes de se envolver com cada canal de interação”. No Japão, essa mecânica é muito diferente daqui do Brasil. A animação é muito voltada para as crianças, enquanto o mangá é mais para adolescentes (porém, sabemos que o Oda conseguiu criar uma história que agrada todas as faixas de idade). Aqui no Brasil não temos uma dublagem oficial, não temos nem uma empresa oficial que comprou os direitos para a criação de boxes de DVD/Blu-ray. E quando One Piece passou na televisão aberta, foi uma versão censurada da 4Kids que passava longe de ser fiel à história.  Então, a trajetória do fandom no Brasil é diferente do Japão. (Para saber mais, recomendo o documentário que fizemos sobre isso: clique aqui)

E, assim como os autores chegaram à análise de dois fandons distintos, no Brasil essa visão também é válida! Continuemos então!
Engajamento dos fãs
Pense que a cooperação entre plataformas de mídia permite justamente a ampliação do material para inúmeras mídias. No caso de One Piece, existem os fãs que assistem só o animê, outros que acompanham só o mangá, e outros que acompanham os dois. Além desses três perfis, há os fãs mais engajados, que procuram informações do que está acontecendo no Japão, traduz spoilers, o mangá, que lê entrevistas do Oda, que procura saber de todos os eventos inspirados em One Piece no Japão e enfim, é um belo de um viciado. E aí podemos citar a própria OPEX, a Romance Dawn e até nós da Um Pedaço, além dos influenciadores de opinião (os vloggers, podcasters, e figuras que se destacam mais).

Os conteúdos que os sites especializados publicam podem ser consideradas mídias propagáveis, e aí entra o papel do fã. Como ele lida com essa propagação? Uma das práticas da narrativa transmídia é trazer materiais para discussão, para que o fandom tenha o que conversar. No caso do fandom de One Piece, mesmo não sendo uma narrativa transmídia, a concepção é a mesma: a história por si só tem também o objetivo de fazer o fandom pensar e discutir. Resumindo: fazem os fãs interagirem uns com os outros. O capítulo da semana traduzido pela OPEX faz um grupo trocar opiniões sobre como foi, o mesmo quando legendam o animê. O mesmo acontece se alguém lê as impressões do Dios sobre o capítulo na Romance Dawn. Esses fãs mais engajados, que publicam conteúdos, espalham ainda mais One Piece e permitem que outros perfis de fãs discutam a história. 
É difícil falar de como as coisas acontecem no Japão, é claro que há interação de fãs por lá, mas provavelmente é bem diferente de como fazemos aqui. O que se pode pegar como modelo é a estatística de popularidade dos personagens. Não achem que é à toa Law ter se tornado o segundo mais popular, e vermos Sabo, Bartolomeo e Koala em ascensão. Os fãs japoneses fazem questão de mostrar seu envolvimento pela internet, do quanto gostam de tal seiyu (dublador), atriz, cantor e personagem. Como Jenkins, Ford e Green salientam em suas análises, “a indústria comercial fiscaliza o material dos fãs, absorvendo o que é compatível com as preferências do mainstrem (o que é a tendência do momento) e marginalizando o resto”. É claro que a Shonen Jump, assim como Oda, seus assistentes e seu editor, acompanham aquilo que está agradando mais os fãs. A imagem do Law em Sabaody foi uma das mais chamativas para muita gente – inclusive fãs brasileiros. Logo depois ele apareceu na guerra de Marineford e mais tarde teve uma saga dedicada a seu passado. Eles identificaram o que agradou mais e responderam no mesmo nível para o fandom. O resultado é que os fãs realmente gostaram do Sabo, Bartolomeo, Law e Koala, a ponto de eles aparecerem em posições positivas na popularidade.

No entanto, Oda também ignora muitas vontades de fãs, talvez por ser algo polêmico, talvez por não querer modificar aquilo que ele pensou originalmente. Talvez simplesmente para não dar ouvidos todo tempo a milhares de opiniões. É preciso foco muitas vezes. Um exemplo: tem uma parcela do fandom que naturalmente torce por casais. Sim, estou falando da palavra mágica “shippar”. Pixiv, Deviantart, Zerochan e Tumblr são empesteados de ilustrações de romance entre personagens. E assim, cá entre nós, a chance do Oda desenvolver profundamente qualquer romance em One Piece beira a 0. Já podemos ficar felizes por ter algo de Kyros e Scarlet na saga de Dressrosa!




Fandom Afirmacional vs Fandom Transformacional

E chegamos ao clímax. A definição desses dois fandons foi criada pelo site obsession_inc, que o dono, coincidentemente, resolveu usar o nick mais criativo: “obsession_inc”! A partir desse artigo, Jenkins, Ford e Green levantaram mais inúmeras questões de como os fãs lidam com os conteúdos propagados, como é a relação entre os fãs e até como as empresas absorvem essas informações todas. Enfim, como o obsession_inc foi genial, vou deixar as duas definições que ele escreveu (caso queiram ler o artigo dele, cliquem aqui):

Fandom Afirmacional: o material de origem é reafirmado, o propósito do autor está voltado para a satisfação da comunidade, as regras são estabelecidas de acordo com a forma como são caracterizados os personagens e com o funcionamento do universo. Esse é o tipo mais impressionante de fandom com o qual a fonte criadora pode falar abertamente, porque o criador detém a carta mágica na manga do “porque eu sou o único que realmente sabe”. Os criadores estão sempre no comando, são sempre a última palavra sobre seus próprios trabalhos, e a ideia assustadora de fãs que criam trabalhos levando embora os trabalhos deles e lidando com eles não é frequente. Estes são os fãs consagrados.
Fandom Transformacional: por outro lado, é sobre obter a fonte e transformá-la de acordo com os próprios propósitos dos fãs, seja para corrigir uma questão decepcionante no material original, seja usando este material para ilustrar um ponto, seja apenas para se divertir. Há uma discordância fundamental sobre “quem é o responsável” que é muito difícil ignorar. Estes são, definitivamente, os fãs não consagrados.

Eu, fazendo parte do fandom desde 2008, li esses conceitos e comecei a visualizar em minha mente tudo que pude presenciar nas comunidades de One Piece. E como é difícil dizer e bater o martelo sobre o que mais é comum no nosso fandom. Fãs afirmacionais ou transformacionais?? Sinceramente, até pessoalmente falando, posso me considerar um pouco dos dois. Mas uma coisa é clara: o Oda é o único que tem a carta mágica, ele é um ser independente total, que não se influencia e nem vê sua história ser arruinada pelo fandom. Nós só somos espectadores que discutimos sobre a história, esperando como que ele terminará. Não sabemos nada do que ele pretende, mesmo que insistamos.
Além disso, é preciso separar o conceito de fã e fandom, sim, são coisas diferentes. O fã é um ser individual, que tem sua personalidade única, seus trejeitos, pensamentos e enfim. O fandom já é um grupo, uma subcultura de fãs em geral. Jenkins é até um pouco otimista quando diz em seu livro que o fandom é caracterizado por "um sentimento de companheirismo e solidariedade", porém, nem sempre uma comunidade é solidária e companheira, pode haver atritos internos em qualquer fandom, justamente porque, por um lado ele é homogêneo por ser formado por fãs que compartilham um gosto em comum. Nesse âmbito, aparecem inúmeras semelhanças, mas tudo o que está fora dele pode ser diferente.

Enfim, antes de achar que os fãs transformacionais são os escrotinhos ou errados, tentemos desconstruir essa ideia. Pelo que é possível perceber da definição, o fandom transformacional é mais sentimental, no sentido de levar em consideração muito mais suas vontades e emoções como prioridades, ignorando até as escolhas do autor. Fanfics de todo tipo podem expressar essas vontades.


Fanfics de ZoSan que o digam!
Vou usar o exemplo do que li de alguns fãs do Zoro na saga de Dressrosa: muitos deles ainda gostam do Zoro, mas sentiram ele apagado na saga. A luta contra o Pica foi muito fácil e rápida e os fãs não estão acostumados a ver o Zoro sair de uma luta sem derramar uma gota de sangue. Dependendo de como é a personalidade do fã, ao ver algo tão incomum assim, e também por ter tido outras expectativas do personagem na saga, acaba se frustrando e tentando encontrar motivos para o personagem – e o Oda - ter feito o que fez, e nem sempre são motivos que estão realmente na história. Ou por exemplo, milhares de fãs ainda questionam o Brook no bando (inclusive eu) a ponto de nem sentirem ele como mugiwara. Eu mesma apago a existência dele do bando por pura forma de defesa, por não acreditar no potencial e no desenvolvimento que o Oda deu a ele. Isso é totalmente transformar algo levando em consideração a própria opinião, e não a do autor. Mas até que ponto questionar é válido? A frustração, raiva, desapontamento podem existir a qualquer momento, só não faz sentido expressar esses sentimentos desrespeitando os outros fãs.
Vejam, não é uma forma que se deve crucificar o fã. Questionar, encontrar equívocos na história e nos personagens não é maléfico, depende do tom que é usado, depende do objetivo do fã. Boa parte dos fãs já se deparou com alguns conflitos nas comunidades, principalmente quando o assunto é “imediato”, “Sanji vs Zoro” e “haki”. E vai falar mal de alguma coisa da história para ver como é a reação?! Muitas criações de textos e teorias têm o pressuposto de abrir uma conversa, nem sempre é para atacar, nem sempre é para ser troll, nem sempre querem armar brigas, a ideia é simplesmente questionar pontos da história que podiam ter sido melhorados – mas que a realidade é outra.

Mas boa parte dessas discussões nem passam pelos filtros japoneses, porque é outra realidade. Japonês mal entende inglês, quem dirá português...nossas opiniões não são rastreadas ou procuradas, tudo que discutimos fica entre nós, como um hobby, como uma maneira de trocar experiências, de conhecer pessoas que gostam das mesmas coisas que a gente. Portanto, até que ponto faz sentido atacar uns aos outros, como se a discussão se tornasse pessoal, ou um campeonato de “eu sei mais que você, ser inferior”? Até que ponto é benéfico para o fandom se atacar, rir da cara do outro porque um fã não lembra de algo da história, ou porque só assiste o animê e não lê o mangá? De printar e ridicularizar os outros? Que sentido tem ler uma história cheia de crítica social e vomitar homofobia, ódio e preconceito nas comunidades?

E mesmo sendo uma realidade que existe, o fandom ainda é ativo, conseguiu fazer com que as vendas do mangá fossem super bem, e é considerado um sucesso no Brasil. Além de termos acesso aos databooks traduzidos, uma editora (Beth Kodama) próxima, que responde, que nos atende, que explica. Ainda possuímos um pacote de assinatura do mangá - que é um dos setores mais burocráticos da Panini. Mesmo com todos os problemas, o fandom conquistou vitórias, demonstra sua paixão pela história, agradece sempre que possível ao Oda, mesmo ele não tendo noção da quantidade de fãs que existe no país e que discute a torto e a direito pela internet.
Somos ainda uma mistura de fandom afirmacional e transformacional, e pode ser que continue assim até o fim da história. E você, já parou pra pensar que talvez tenha um pouco das duas características?

.
 
Copyright © 2014 Um Pedaço. Design por OddThemes