18 de jan de 2016

Qualidade da animação em One Piece: até onde a culpa é da Toei?


Boa parte dos fãs de One Piece conheceu a obra de Eiichiro Oda pelo anime. Com sua estreia em 1999, a animação de One Piece continua até hoje, elogiada como uma boa adaptação do mangá, salvo algumas mudanças pequenas em relação à história original.

Entretanto, o anime é hoje alvo de críticas cada vez mais comuns, não somente atribuídas à falta de qualidade da arte, mas também ao seu enredo muitas vezes prolongado excessivamente. Há muitos fatores envolvidos na produção de um anime, portanto, nesta matéria, tentarei demonstrar parte do making off da animação dentro dos estúdios da Toei e alguns dos fatores que contribuem com a sua queda de qualidade.

De acordo com o site Anime News Network, o custo de um episódio regular de One Piece (ou seja, um episódio de meio de saga, que normalmente não envolve lutas ou cenas de movimento complexas) equivale a 10 milhões de ienes, o que corresponde a 345.400 reais. Isso mesmo, um episódio regular custa praticamente 350 mil reais. Neste custo, estão inclusos todos os salários dos animadores e técnicos relacionados (como os dubladores, por exemplo), script, material para animação, fotografia, arte de fundo, edição de som, acabamento, entre outros. O retorno de audiência é significativo: segundo o site japonês TV Guide, do dia 03/08 ao dia 09/08 de 2015, One Piece registrou, na categoria "anime", uma audiência de 8.3%, apenas perdendo para Sazae-san. Em terceiro lugar, temos Chibi Maruko-chan, seguido por Detetive Conan e Dragon Ball Super.


Audiência de One Piece (grifado em vermelho) em porcentagem.

Portanto, o retorno do anime no Japão é significativamente alto. Isto seria um indicador de que o anime é prestigiado e de boa qualidade. Não é exatamente o que ocorre na prática. Outros dois fatores contribuem para sua falta de qualidade em alguns momentos: sua "desestabilidade artística" devido ao tamanho da equipe e também o tamanho da obra em si.

A equipe de One Piece é extremamente grande. Desde que começou em 1999, já passou pelas mãos de vários diretores gerais: Konosuke Uda (eps. 1-278), Junji Shimizu (eps. 131-159), Munehisa Sakai (eps. 244-372), Hiroaki Miyamoto (eps. 352-679) e Toshinori Fukuzawa (ep. 663-atual). Entretanto, cada episódio possui um diretor de animação. São mais de 30 membros, incluindo diretores para episódios especiais e filmes. Cada episódio também tem seu próprio chefe de storyboard, no total de 25 membros. Isto sem incluir os próprios animadores. São 5 equipes inteiras que se revezam ao longo da série. Para ter uma dimensão do tamanho da equipe, confira este link a seguir: http://www.animenewsnetwork.com/encyclopedia/anime.php?id=836

É realmente difícil manter um equilíbrio de qualidade em uma equipe tão grande. Não somente seu número, mas também suas condições de trabalho são delicadas. O prazo sempre é curto, dificultando a finalização do produto. Não é como fazer um mangá, é um processo muito mais demorado e trabalhoso. Além disso, os salários dos animadores são precários diante do tanto de trabalho que eles são postos a fazer. Não importa se o animador é talentoso ou não, seu salário vai ser o mesmo. Há apenas a separação de tarefas: os melhores animadores fazem as cenas principais, enquanto os demais fazem os frames que envolvem figurantes em multidões (é simples tirar a prova disso. Compare os marinheiros e cidadãos aleatórios em Dressrosa com os personagens principais).

O tamanho de One Piece também influencia diretamente a qualidade da animação. O editor Taku Sugita, em entrevista, comentou que a obra está entre 70 a 80% do final. Ainda há um bom caminho a ser trilhado, inclusive pelos animadores. Os poucos fillers são indicadores positivos, entretanto, isto acaba gerando alguns problemas: para manter a animação afastada a uma distância segura do mangá sem o recurso do filler, é preciso fazer caber em 20 minutos cenas que ocorreriam em 10 minutos. Por exemplo, quando nos deparamos com um capítulo de luta, estamos diante de quadros com movimentos rápidos, agilidade e, normalmente, páginas duplas. Um capítulo de luta é, em sua maior parte, dinâmico. Portanto, é necessário quebrar esse dinamismo e encaixar algumas cenas a mais no anime para que não usem material do próximo capítulo, aproximando-se, assim, cada vez mais do mangá.

Além disso, a animação passou por mudanças "técnicas" após o timeskip, como vocês podem conferir nas brincadeiras que os fãs fazem com as cores de peles mais claras. Outra reclamação é pautada na abertura: um trabalho relativamente simples está cada vez mais preguiçoso (convenhamos que Hard Knock Days está de chorar, é só passar frame por frame).

Em suma, todos os itens acima são fatores que contribuem com a falta de qualidade na animação de One Piece. Além disso, não é possível comparar a Toei com outros estúdios de animação. São equipes diferentes, desenvolvendo projetos diferentes. MADHOUSE, Aniplex, Production I.G, entre outros, são nomes associados a animes de qualidade. Mas normalmente são projetos de temporada, de 11/12 a 23/24 episódios. É extremamente diferente da produção de um anime que vai ao ar desde 1999. Também é injusto exigir uma qualidade ao nível do Studio Ghibli, por exemplo. Studio Ghibli, nas mãos do mestre Hayao Miyazaki, entrega filmes em um conceito artístico extremamente elevado. Embora a Toei cometa alguns pecados em geral, também não podemos nos esquecer de que outros estúdios também entregam materiais de qualidade extremamente duvidosa: Pierrot é um forte nome (quem se lembra do Pain bugado de Naruto Shippuuden? Culpa do estúdio Pierrot!). Embora com pontos negativos e positivos na atualidade, é complicado defender um estúdio que, no passado, nos presenteou com Digimon, Dragon Ball, Cavaleiros do Zodíaco, Sailor Moon, entre outros nomes de peso da nossa infância, e hoje em dia entrega animações duvidosas como Soul of Gold e Dragon Ball Super. Obviamente, algo como um todo na Toei se perdeu, mas isso não é exclusividade do estúdio.

Concluindo, tudo isto acaba por gerar certo descontentamento no fã. Mas também é necessário ter prudência na hora de avaliar uma animação. Nossas reclamações nunca irão mudar o modo de produzir One Piece, especialmente se isto interferir diretamente no orçamento e lucro do estúdio. Além disso, a animação em si está longe de ser uma animação ruim. É ela que alcança muitas crianças aos domingos no Japão e, por que não, muitas crianças do nosso Brasil. Particularmente, eu sinto este déficit de qualidade sim, mas eu acho injusto demais comparar o mangá, que tem o traço do nosso gênio Eiichiro Oda, com o anime que é feito por tantas mãos. Também não me esqueço das trilhas sonoras marcantes (quem não se arrepia ouvindo Overtaken ou sente aquela pontada no peito com Mother Sea?), das vozes sensacionais dos dubladores (Hiro, meu divo <3), das falas épicas e dos efeitos sonoros dos golpes. É preciso dar valor ao que se tem. Se a crítica é necessária, que ela se faça de maneira justa.




 
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